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segunda-feira, 19 de julho de 2010

telerj




O mar não está pra peixe.
Nem pra conchas, nem pra gente, nem pra mar...
O mar não está.
Por favor, após o sinal eletrônico, deixe o seu recado.


Michel Melamed

sou eu / o quereres




Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.


Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...

(Álvaro de Campos)

___________________________________________________

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

(Caetano Veloso)


os rumores a seu respeito




Desde o momento em que você nasce as pessoas começam a falar sobre você umas com as outras, sem que você tenha acesso direto ao conteúdo do que elas dizem e sem que possa interferir com a mesma liberdade criativa nas concepções que desenvolvem a seu respeito.

Com o tempo, os rumores a seu respeito tornar-se cada vez mais associados a você; quando você chega, o que as pessoas de fato enxergam é uma complexa obra de ficção, uma impressão formada tanto ou mais pelo conjunto total dos rumores a seu respeito quanto pelo que você de fato já disse ou fez.

Somos, cada um de nós, uma obra coletiva.


(Paulo Brabo)


segunda-feira, 29 de junho de 2009

A pergunta que o corpo faz


O CORPO COMO MÍDIA DE SEU TEMPO


A pergunta que o corpo faz


Helena Katz



Direto ao ponto: o que distingue um espetáculo de dança contemporânea é a pergunta que ele faz। Mais explicadinho: é preciso existir uma pergunta, mesmo que quem assista ao espetáculo não a identifique de imediato. Se, de fato, acontecer assim, essa tal pergunta pode ser tomada como um divisor de águas: a dança que indaga cabe dentro da nomeação de contemporânea, e a dança que não interroga seu público pertence a outra espécie. Este artigo discutirá o que exatamente significa essa pergunta.


Antes, quando se elegia a técnica empregada no trabalho para servir de critério de sua classificação, tudo parecia mais claro। Dança nas pontas? Fácil, trata-se de balé clássico. Dança com o corpo pintado de branco fazendo gestos bem lentos? Não há dúvida, trata-se de butô. Mas, se no lugar do tipo de treinamento, for indispensável atentar para o modo como a coreografia organizou as informações que vieram da técnica aprendida, tudo se complica. Deixa de ser suficiente, para efeitos de classificação da dança, se o corpo faz passos de balé ou rola pelo chão, se faz contrações ou acrobacia. O que passa a ser necessário é conseguir identificar como e/ou para que o corpo faz o que faz.


O que muda, basicamente, é o velho entendimento tácito de que o critério para distinguir a dança contemporânea repousa na compreensão de que ela decorre como efeito exclusivo do treinamento do corpo। Mais ou menos como se as marcas de uma técnica condicionassem também as suas possibilidades composicionais, cabendo ao corpo cumprir uma relação determinista entre técnica e estética da qual não pode escapar. Técnica como uma bula de instruções das coreografias em que pode resultar, uma receita de um destino estético.


Se isto não ocorre, apesar da técnica inscrever marcas que dirigem o desempenho do corpo, significa que os passos, os gestos, as seqüências, as frases, que tudo isso pode ser montado, remontado e desmontado de modos sempre novos, desmanchando aquelas expectativas que o hábito automatizou em nós। Esse desvinculamento entre técnica e estética se liga também à mudança no compromisso entre sala de aula e palco que veio ocorrendo ao longo da história da dança. Na época dos maîtres de balé do século XIX, cabia ao mesmo profissional criar a obra e montar uma pedagogia para sua execução. A sala de aula servia ao espetáculo. A especialização que resultou na separação entre professor e coreógrafo mexeu exatamente aí, consagrando a necessidade de uma técnica que viesse a capacitar o bailarino a dançar diferentes criações de coreógrafos distintos.


Todavia, como qualquer técnica carrega, sim, uma espécie de compromisso com certas famílias de possibilidades, isso leva muitos de nós a continuar a buscar identificá-la como índice do vínculo: se está dançando passos de balé e usando sapatilha de ponta, aquilo é balé clássico e ponto final। Mas qualquer um que tenha assistido à Karole Armitage ou às inúmeras criações de William Forsythe sabe que a argumentação não se aplica. Ambos usam estes ingredientes, mas o produto que deles resulta não cabe debaixo do guarda-chuva do balé clássico e sim do contemporâneo.


Por quê? Porque o que conta é o como e o para que aqueles passos e aquela sapatilha de ponta lá estão। E, nos dois casos – embora de maneiras inteiramente distintas – tanto os passos como a sapatilha mais instigam que distraem. Como que nos obrigam a mirá-los com atenção investigativa para entender o que se passa. Não nos fazem buscar a história que contam nem os sentimentos que expressam. Fazem de nós não mais espectadores, mas parceiros. Precisamos construir juntos a legenda do que se passa. A obra me pergunta e cabe a mim levantar hipóteses sobre ela.


Pronto। A obra fez uma pergunta. Não se deixou consumir numa fruição instantânea, não permitiu que o olhar escorresse sem compromisso maior do que o de passar de uma cena à outra somente confirmando nossas expectativas e impressões. A coreografia entregou alguns níveis de apreensão, mas indicou que há mais a ser desvendado. Ou seja, o modo como aqueles passos estão montados propõe algo a mais.


Quando você vê Cristina Moura sorteando papeizinhos, Marcela Levi entrando e saindo de sua roupa, Wagner Schwartz segurando uma pedra, Luis de Abreu nu e de sapato alto hasteando uma bandeira do Brasil esburacada, Micheline Torres apontando para o espaço que acabara de ocupar, Angelo Madureira dançando frevo sem a música e sem a seqüência habitual do frevo, parece que há mais a identificar do que aquilo que o olho capta de imediato। E talvez a discussão proposta por Gícia Amorim – em estágio mais avançado – e Adriana Banana – apenas iniciada – nos ajude a aprofundar a reflexão sobre a técnica na classificação da dança contemporânea, pois ambas demonstram como as idéias encarnadas na técnica de Cunningham (Gicia) ou de Trisha Brown (Adriana) podem abrigar propostas pessoais. Pode-se identificar no corpo de todos eles qual o treinamento, mas há algo lá, no que apresentam, que nos faz trabalhar junto. Por isso, a pergunta que fazem se distingue de um "decifra-me ou te devoro".


A dança contemporânea acontece num pacto entre palco e platéia। Não há emissor e receptor, mas um fluxo que atravessa todos os envolvidos com graus diferenciados de responsabilidade compartilhada. Mas cuidado! Não confunda pergunta com truque ou tique ou adivinhação, caso contrário você poderá dizer que o Momix, por exemplo, faz dança contemporânea – o que seria um erro lamentável.



Helena Katz
Crítica de dança do jornal O Estado de S.Paulo e professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde coordena o Centro de Estudos em Dança.
Este texto pode ser encontrado no CD-ROM Rumos Itaú Cultural Dança 2003.

sábado, 23 de agosto de 2008

Origem da Liturgia Protestante




Segue um texto fantástico e embasado, mas q exigirá paciência e real interesse pela Verdade e pela Comunhão dos Santos.

O texto é um condensado do primeiro capítulo do livro de Frank Violla, e revela as origens de nossas práticas "cristãs". Ele está resumido, porém, não perde o foco ou o valor.

Para os que tiverem coragem... BOA SORTE!!!

Segue:



As reuniões da igreja primitiva eram marcadas pelo funcionamento de cada membro, numa participação espontânea, livre, vibrante e aberta. Era um encontro fluido, não um ritual estático. E era imprevisível, bem diferente do culto da igreja moderna.


A Missa Católica

De onde vem então a liturgia do culto protestante? Ela tem suas raízes principais na Missa Católica.

Segundo o historiador Will Durant, a Missa Católica foi “baseada em parte no culto do Templo judaico, em parte nos místicos rituais de purificação dos gregos”. Durant destaca que a Missa estava profundamente mergulhada tanto no pensamento mágico pagão como no drama grego. “A mente grega, moribunda, teve uma sobrevida na teologia e liturgia da igreja; o idioma grego, após reinar por séculos sobre a filosofia, chegou a ser o veículo da literatura e do ritual cristão; o misticismo grego foi passado adiante pelo impressionante misticismo da Missa”.

Os cristãos copiaram as vestimentas dos sacerdotes pagãos, o uso do incenso e da água benta nos ritos de purificação, a queima de velas durante a adoração, a arquitetura da basílica romana em seus edifícios de igreja, a lei romana como base da “lei canônica”, o título Pontifex Máximus (Sumo Pontífice) para o Bispo principal, e os rituais pagãos para a Missa Católica.


A contribuição de Lutero

Em 1520 Lutero lançou uma violenta campanha contra a Missa Católica Romana. O ponto culminante da Missa sempre foi a Eucaristia, também conhecida como “Comunhão”, “Ceia do Senhor” ou “Santa Ceia”. Tudo é direcionado para o momento mágico em que o sacerdote parte o pão e o distribui para as pessoas. Desde Gregório o Grande (540-604) a igreja católica ensinava que Jesus Cristo é novamente sacrificado através da Eucaristia.

O erro cardeal da Missa, disse Lutero, era que esta foi uma “obra” humana baseada numa falsa compreensão do sacrifício de Cristo. Então, em 1523, Lutero enunciou sua própria revisão da Missa Católica, revisão essa que é o fundamento de toda adoração protestante. O núcleo dela é: em vez da Eucaristia, Lutero colocou a pregação no centro da reunião.

Por conseguinte, no culto de adoração dos protestantes modernos o púlpito é o elemento central e não a mesa do altar (onde se coloca a Eucaristia nas igrejas católicas). Para Lutero, “uma congregação cristã nunca deve reunir-se sem a pregação da Palavra de Deus e a oração, não importa quão exíguo seja o tempo da reunião. A pregação e o ensino da Palavra de Deus é a parte mais importante do culto divino”.

A noção de Lutero da pregação como ponto culminante do culto de adoração permanece até nossos dias. Todavia tal crença não tem nenhuma procedência bíblica. Como disse um historiador, “O púlpito é o trono do pastor protestante”. É por esta razão que os ministros protestantes ordenados são comumente chamados de “pregadores”.

Apesar dessas modificações, a liturgia de Lutero variava bem pouco da Missa Católica. Basicamente, Lutero reinterpretou muitos dos rituais da Missa, mas preservou o cerimonial, julgando-o apropriado. Ele manteve, por exemplo, o ato que marcava o ponto culminante da Missa Católica: quando o sacerdote levanta o pão e o cálice e os consagra.

Da mesma maneira, Lutero fez uma drástica cirurgia na oração Eucarística, mantendo apenas as “palavras sacramentais” de 1 Coríntios 11:23 em diante — “O Senhor Jesus na noite em que foi traído, tomou o pão… e disse ‘Tomai e comei, este é o meu Corpo’…” Até hoje os pastores protestantes recitam religiosamente este texto antes de ministrar a comunhão.

A Missa de Lutero manteve os mesmos problemas da Missa Católica: os paroquianos continuaram sendo espectadores passivos (com a exceção de poderem cantar), e toda liturgia era dirigida por um clérigo ordenado (o pastor tomando o lugar do sacerdote). Embora falasse muito sobre “sacerdócio de todos os crentes”, Lutero nunca abandonou a prática de ordenação do clero. Sob a influência de Lutero, o pastor protestante simplesmente substituiu o sacerdote católico.


A contribuição de Zwinglio

Zwinglio (1484-1531), o reformador suíço, aos poucos introduziu sua própria reforma, que ajudou a desenhar a ordem de adoração de hoje. Ele substituiu a mesa do altar por algo chamado “mesa da comunhão”, onde se ministrava o pão e o vinho. Ele também ordenou que se levasse o pão e o vinho à congregação em seus bancos utilizando bandejas de madeira e taças.

Zwinglio também é nominado como o paladino da abordagem da Santa Ceia enquanto “memorial”. Este ponto de vista é apoiado pela corrente principal do protestantismo estadunidense. O pão e o vinho são meramente símbolos do corpo e do sangue de Cristo. Como Lutero, Zwinglio enfatizou a centralidade do sermão. Tanto que ele e seus colegas pregavam com a freqüência de um canal de notícias televisivo: catorze vezes por semana.


A contribuição de Calvino e Cia

Os reformadores João Calvino da Alemanha (1509-1564), João Knox da Escócia (1513-1572), e Martin Bucer de Suíça (1491-1551) fizeram algumas modificações na liturgia de Lutero. A mais notável foi a coleta de dinheiro após o sermão. Como instrumentos musicais não são mencionados explicitamente no Novo Testamento, Calvino eliminou o órgão e os coros.

Como Lutero, Calvino enfatizou a centralidade da pregação durante o culto de adoração. Ele acreditava que cada crente tinha acesso a Deus através da Palavra pregada e não através da Eucaristia. Devido a seu gênio teológico, a pregação na igreja de Calvino em Gênova era intensamente teológica e acadêmica. Também era altamente individualista, característica que nunca foi eliminada no protestantismo.

A igreja de Calvino em Gênova foi o modelo para todas as igrejas reformadas. Isto explica o caráter intelectual da maioria das igrejas protestantes hoje, especialmente a Reformada e a Presbiteriana.

A característica mais nociva da liturgia de Calvino é a de fazer o culto ser dirigido de cima do púlpito. O cristianismo nunca se recuperou disso. Hoje, o pastor atua como mestre de cerimônias e diretor executivo do culto dominical.

Um costume adicional que os reformadores copiaram da Missa foi a prática do clero caminhar em direção a seu assento designado no princípio do culto enquanto a congregação ficava em pé, cantando. Essa prática teve início no século IV quando os bispos entravam magnificamente em suas basílicas, e foi por sua vez copiada diretamente do cerimonial da corte imperial pagã. É ainda observada em muitas igrejas protestantes.


A contribuição dos puritanos

O abandono das vestes clericais, ídolos, ornamentos e o clero escrevendo seus próprios sermões (em vez de ler homilias) foi uma contribuição positiva que os puritanos (os calvinistas da Inglaterra) nos legaram.

A glorificação do sermão, no entanto, alcançou seu apogeu com os puritanos norte-americanos. Os residentes da Nova Inglaterra que faltavam ao culto eram multados ou presos no tronco.
As contribuições dos metodistas e do Evangelismo da Fronteira

Os metodistas do século XVIII proporcionaram uma dimensão emocional à ordem de adoração protestante. A congregação foi convidada a cantar com força, vigor e fervor. Desta maneira, os metodistas foram os precursores dos pentecostais.

Os séculos XVIII e XIX trouxeram novidades para o protestantismo americano. Primeiramente, os evangelistas fronteiriços alteraram a meta da pregação. Sua meta exclusiva era agora a conversão de almas. Dentro da cabeça do evangelista, não havia outra coisa no plano de Deus a não ser a salvação. Esta ênfase teve sua origem na pregação inovadora de George Whitefield (1714-1770), o primeiro evangelista moderno a pregar ao povo ao ar livre. A noção popular de que “Deus ama você e tem um plano maravilhoso para sua vida” foi introduzida por Whitefield.

Em segundo lugar, a música do evangelho fronteiriço falava à alma e visava propiciar uma resposta emocional à mensagem da salvação. Todos os evangelistas famosos tinham músicos em sua equipe justamente para este propósito. A adoração passou a ser um espetáculo.

Seguindo a trilha dos revivalistas, o culto metodista passou a ser o meio para obter o fim. A finalidade do culto já não era mais a simples adoração a Deus: os crentes foram instruídos a ganhar novos crentes individuais. Os sermões abandonaram a temática da “vida real” para proclamar o evangelho ao perdido. Toda humanidade foi dividida em dois desesperados campos polarizados: perdido ou salvo, convertido ou incrédulo, regenerado ou condenado.

Em terceiro lugar, os metodistas e os evangelistas fronteiriços deram à luz o “apelo”, a prática de convidar pessoas que desejam orações a colocar-se de pé e vir à frente.

Tanto pecadores como santos carentes eram convidados a ir à frente para receber as orações do ministro. Charles Finney (1792-1872) convidava o pecador para ir à frente e ajoelhar-se diante da plataforma para receber a Cristo. Finney tornou esse método tão popular que “após 1835, chegou a ser um elemento indispensável no moderno revivamento”.

Além da popularização do apelo, também se atribui a Finney a invenção da prática de orar nominalmente pelas pessoas e mobilizar grupos de obreiros para fazer visitas nas casas.

A contribuição predominante de Finney ao cristianismo moderno foi o pragmatismo – a crença de que se algo funciona ou dá resultados, deve ser apoiado ou aceito. Finney ensinava que o único propósito da pregação é ganhar almas; qualquer mecanismo que ajudasse atingir esta meta poderia ser aceito. O cristianismo moderno nunca se recuperou desta ideologia anti-espiritual.

A meta dos Evangelistas Fronteiriços era levar pecadores individualmente a uma decisão individual por uma fé individualista. Como resultado, a meta da Igreja Primitiva — a edificação mútua e o funcionamento de cada membro manifestando Jesus Cristo coletivamente diante dos principados e potestades — perdeu-se completamente.

O Evangelismo Fronteiriço americano converteu a igreja em um ponto de pregação, reduzindo a experiência da ekklesia a uma missão evangelística. Isto normatizou os métodos revivalísticos de Finney e criou personalidades do púlpito como a atração dominante.


A tremenda influência de D. L. Moody

As sementes do “evangelho revivalista” foram espalhadas através do mundo ocidental pela influência de D. L. Moody (1837-1899).

Moody inventou o solo após o sermão do pastor. O cântico de apelo era entoado por um solista até que George Beverly Shea sugeriu que fosse cantado pelo coral. Shea encorajou Billy Graham de utilizar um coral para cantar hinos como “Eu venho como estou” enquanto as pessoas iam à frente para aceitar a Cristo.

Moody deu-nos o testemunho porta em porta, os anúncios e as campanhas evangelísticas. Deu-nos o “cântico de evangelização” ou “hino evangelístico” e também popularizou o “cartão de decisão”, invenção de Absalom B. Earle (1812-1895).

Moody foi o primeiro a pedir ao que queria ser salvo para colocar-se em pé e deixar-se conduzir em uma “Oração do Pecador”. Cinqüenta anos depois, Billy Graham melhorou a técnica de Moody introduzindo a prática de pedir ao ouvinte para baixar a cabeça, fechar os olhos (“sem olhar nada em volta”), e levantar as mãos como resposta à mensagem salvadora.

Vale notar que Moody foi grandemente influenciado pelo ensino dos Irmãos Plymouth quanto à escatologia (final dos tempos), que pregava a vinda iminente de Cristo antes da grande tribulação. O pré-tribulacionismo deu origem à idéia de que os cristãos necessitam salvar muitas almas o mais rápido possível, antes do fim do mundo.


A contribuição pentecostal

Inaugurado por volta de 1906, o movimento Pentecostal trouxe uma expressão mais emotiva através dos cânticos entoados pela congregação. Estes incluíam mãos levantadas, danças entre os bancos, bater palmas, falar em línguas e o uso de pandeiros.

Porém, suprimidas as características emotivas do culto pentecostal, sua liturgia é idêntica à batista. Um pentecostal tem apenas mais espaço para mover-se ao redor do seu assento.

Como em todas as igrejas protestantes, o sermão é o ponto culminante da reunião pentecostal. Todavia o pastor às vezes sentirá “o movimento do Espírito”. Nesse caso, ele adiará seu sermão para o próximo domingo, e a congregação cantará e orará durante o resto do culto.

A tradição pentecostal também deu-nos a música do solista e a música coral (muitas vezes descrita como “música especial”) que acompanha a oferta.

Na mente do pentecostal, a adoração a Deus não é um assunto coletivo [o corpo da igreja], mas uma experiência individual [o membro da igreja]. Com a penetrante influência do movimento carismático, essa obsessão de adoração individualista infiltrou-se na grande maioria das tradições protestantes.


Muitos ajustes, nenhuma mudança vital

Durante os últimos 500 anos, a ordem de adoração [liturgia] protestante permaneceu quase que praticamente inalterada. No fundo, todas as tradições protestantes partilham as mesmas características em sua liturgia: suas reuniões são celebradas e dirigidas por um clérigo, o sermão é a parte central, os membros são passivos e não tem permissão para ministrar.

Os reformadores produziram uma tímida reforma da liturgia católica. Sua principal contribuição foi a mudança do enfoque central. Nas palavras de um erudito, “o catolicismo seguiu o caminho dos cultos pagãos, tomando o ritual como elemento central de suas atividades, enquanto que o protestantismo seguiu o caminho da sinagoga ao colocar o livro no centro de seus cultos”. Lamentavelmente, nem o catolicismo nem o Protestantismo tiveram êxito em colocar Jesus Cristo no centro de suas reuniões. Não é surpreendente o reformador ver a si mesmo como católico reformado.

É de lamentar-se que a liturgia protestante não tenha se originado com o Senhor Jesus, os Apóstolos, nem com as Escrituras do Novo Testamento.

A liturgia protestante reprime a participação mútua e o crescimento da comunidade cristã. O culto inteiro é dirigido por um homem. Onde está a liberdade para que Jesus fale através de Seu Corpo a qualquer momento? De que forma, na liturgia, Deus poderá dar a um irmão ou irmã uma palavra para compartilhar com toda congregação? A ordem de adoração não permite tal coisa. Jesus Cristo não tem a liberdade de expressar, através de Seu Corpo, Sua direção. Ele é mantido cativo por nossa liturgia. Ele mesmo é transformado em espectador passivo.

Finalmente, para muitos cristãos o culto dominical é extremamente enfadonho. É sempre a mesma ladainha sem nenhuma espontaneidade. É altamente previsível, bem superficial, e completamente mecânico. Há pouco ar fresco ou inovação.

Igrejas atentas ao seu “índice de audiência” tem reconhecido a natureza estéril do culto moderno. Contudo, apesar do entretenimento, até mesmo o movimento das igrejas que atuam em função de seus “indicadores” não conseguiu livrar-se da pró-forma litúrgica protestante, imóvel, sem imaginação, sem criatividade, inflexível, ritualista, sem sentido.

O culto, portanto, continua cativo pelo pastor; o tripé “sermão, hino, apelo” permanece intacto; e a congregação prossegue na condição de espectadora muda (só que agora está mais entretida nesta condição).

A liturgia protestante que você assiste (ou agüenta) a cada domingo, ano após ano, dificulta a transformação espiritual. Isto porque essa forma de culto: 1) estimula a passividade, 2) limita o funcionamento, e 3) implica que investir uma hora por semana é o segredo da vida cristã vitoriosa.

O fato é que a liturgia protestante é antibíblica, impraticável e antiespiritual. Não há nada semelhante a isso no Novo Testamento. A liturgia contemporânea dilacera o coração do cristianismo primitivo, que era informal e livre de rituais.

Reuniões [como as da igreja primitiva] são marcadas por uma incrível variedade. Não são ligadas a um homem, nem a um modelo de adoração dominada pelo púlpito. Há espontaneidade, criatividade e frescor.

O Novo Testamento não silencia com respeito a como nós, cristãos, devemos nos reunir. Devemos continuar a arruinar o funcionamento da direção de Cristo defendendo as tradições do homem?

Ficar dramaticamente longe deste ritual dominical é a única maneira de descongelar o povo de Deus.




Condensado por Paulo Brabo, de Cristianismo Pagão - livro de Frank Violla
fonte:www.baciadasalmas.com

sábado, 2 de agosto de 2008

Arte: Universo em contínua e (e)terna descoberta.


Gostei muito mesmo desta peça...; não gostei nada daquela música...; que coisa linda aquela escultura, BAH...; pintura esdrúxula e com péssimo gosto; ...eu falei que era poema pobre e sem sentido.....; ...puxa, mas tinha 5 estrelas de recomendação para assistirmos a este filme.....sinto-me lesada em ter vindo a este concerto......Pois é, vivemos com esta dualidade e incoerência dos que se “tornam” críticos de arte. Nós mesmos acabamos assumindo este papel o tempo todo, não é verdade?!

De maneira geral, o conceito de arte é extremamente subjetivo e, portanto, muito amplo. Mas, genericamente, a arte varia em pelo menos quatro aspectos: a. A cultura a ser analisada b. O período histórico c. O indivíduo em questão b. Sua herança e vivência pessoal Na visão cristã, de maneira genérica, vemos a ARTE como expressão da criatividade de Deus no Universo, criado por ELE mesmo, no tempo e na história. Arte também é a expressão da criatividade do homem recebida do Seu Criador. Portanto, estão e estarão sempre absolutamente integradas.

O homem criado à imagem e semelhança de Deus “faz arte para viver” ou vive para fazer arte em todas as suas direções relacionais. O homem, ocupando seu espaço no mundo e em sua interação com todas as áreas da vida, criou objetos para satisfazer suas necessidades espirituais e emocionais. Criou também para suas necessidades práticas, como as ferramentas para plantar, cavar a terra e os utensílios de cozinha.

Outros objetos são criados por serem interessantes ou possuírem um caráter educacional e instrutivo. O homem cria a arte como experimentar da vida, como meio de vida, para que o mundo saiba o que pensa, para divulgar as suas crenças (ou as de outros), para usufruir, estimular e distrair a si mesmo e aos outros tendo prazer nas coisas criadas, para explorar novas formas de olhar e interpretar objetos e cenas no tempo, espaço e história. O mundo necessita de arte!

Porque fazemos arte e para que a usamos é aquilo que chamamos de função da arte, que pode ser feita para o RELACIONAMENTO HUMANO, decorar o mundo, para espelhar ou retratar o nosso mundo (naturalista), para ajudar no dia-a-dia (visão utilitária), para explicar e descrever a história, para nossa alegria e prazer, para ser usada de maneira terapêutica e para ajudar a explorar e conhecer o mundo.


Como entendemos a arte de maneira cristã?

A arte é um caminho de diálogo, de aproximação, de apreciação, de expressão existencial, expressão das percepções diversas do ser humano; e, portanto, o aspecto estético do BELO passa ou está ligado à visão do ser humano do divino, da criação e da vida.

Francis Schaeffer escreveu que a visão e a compreensão de Deus é o início de tudo. Sua fala encontra eco na visão de Agostinho, que afirma ser a arte a expressão da alma humana diante da Criação e do Criador.

É por isso que não podemos, num primeiro momento, pensar em outra Pessoa quando aplaudimos alguém que expressa em diversos caminhos sua capacidade criativa. Numa mostra de pintura ou escultura, num show musical, nos versos de um repentista, numa expressão corporal bem feita no grupo de coreografia, ou num belo hino ouvido por um coro. Deus é o Criador e nossa teologia deve reafirmar isto sempre. Se o diabo distorce o seu conteúdo, ou a pessoa dedica a sua arte depois para outra coisa, isto é uma outra história e objeto de mais uma análise ou artigo.

O que vemos, então, quando admiramos uma arte depende da nossa experiência e de nossos conhecimentos, da nossa disposição no momento, da nossa imaginação e daquilo que o artista pretendeu mostrar. Mas, e os críticos? Porque atribuem ou não valor a esta ou aquela expressão?

O chamado criticismo artístico ou histórico está presente na história da arte. Eles são “os filtros”, as peneiras pelos quais a ARTE é considerada e valorizada. A crítica (nós e os outros), portanto, tem o poder não só de atribuir o estatuto de arte e valor a um objeto, mas de classificá-lo numa ordem de excelências, segundo critérios próprios ou de cada século. Em cada cultura, encontramos NOÇÕES que vão construindo um terreno com critérios para avaliação.

É por isso que vemos as opiniões de tantas pessoas diferentes, pois cada um aprecia o belo segundo suas heranças e informações absorvidas. Claro que o fator cultural é importante neste processo e vemos o quanto o desconhecimento de sua própria cultura afeta uma atribuição de valor.

E o estilo? Por que rotulamos os estilos de arte? Estilo é como o trabalho de cada um se mostra, depois do artista ter tomado suas decisões à luz de sua herança e capacidade. Cada artista possui um estilo único. Imagine se todas as peças de arte feitas até hoje fossem expostas numa sala gigantesca. Nunca conseguiríamos ver totalmente e objetivamente quem fez o quê, quando e como. De fato, aproximamo-nos bastante, mas não conseguimos avaliar com sucesso todas as intenções do autor ou do artista. Podemos verificar com algumas ferramentas que tipo de arte foi feito, quando, onde o como; desta maneira, estamos dialogando com a obra de arte, e assim podemos entender as mudanças que o mundo teve. Toda arte deve ser vista à luz da época em que foi produzida, para que ela ganhe significado correto e não seja desvalorizada pelas mudanças sociais de cada século. Para que seja apreciada da melhor forma.

Avaliemos nossa maneira de pensar ou de julgar uma expressão de arte. Precisamos de honestidade, sensibilidade e raciocínio correto ao avaliarmos qualquer expressão de arte e respeitarmos a essência da arte e sua filosofia. Inspiração de alguém para alguém, comunicação nem sempre objetiva e muitas vezes subjetiva.

Artistas desejam espalhar suas idéias e convicções ou suas contradições. Os artistas cristãos deveriam estar fazendo o mesmo: espalhando a arte e a realidade do Artista Maior, e seus propósitos para o homem e Sua criação. O Evangelho precisa cada vez mais destes artistas em todas as áreas de expressão. A Igreja precisa pregar e ensinar isto. É terreno absolutamente santo, separado também para a manifestação da Sua glória e beleza.

Artistas cristãos também são chamados para serem espelhos da criatividade do Criador, que vão constatando, cantando, declamando, pintando, dançando e contando a história! Vai interagindo no tempo e na história com Deus, com Sua Criação e a raça humana, sabendo que esta história se fecha um dia no KAIRÓS e no CRONOS. Já vivemos a realidade do ETERNO.

Portanto, continuemos espelhando na vida e na ARTE, o poder criativo de Deus, de Jesus, Daquele que redimiu a cultura, a criação, a arte, o coração, a alma, e a própria história de cada um de nós em todos os tempos e em todas as etnias!


por Nelson Bomilcar

quinta-feira, 5 de junho de 2008

O Hip Hop que deseja mais


É quase um absurdo manter a idéia obsoleta de que o Hip Hop não pode mais do que já representa. Ele deve e pode. Menosprezar a energia absoluta e a natureza virtuosa desta manifestação quando pensada também na perspectiva cênica, é sugerir que se mantenha um único paradigma de quem pensa e até faz dança.


Amparado sobre estas questões que há algum tempo vem me provocando, resolvi aqui traçar de forma sucinta um panorama a fim de tentar compreender porque essa dança ainda se mantém, apesar de algumas exceções, como um sub-PRODUTO dos teatros ou uma dança para alegrar cronogramas sórdidos de inúmeros festivos.


Onde está o problema?

Percebo claramente três fases bem delimitadas que ocorrem com os coreógrafos que trabalham essencialmente com as linguagens provenientes do Hip Hop e ‘Breakdance‘ e de alguma forma desejam traduzir, ou melhor, transferir tais linguagem para o universo cênico.


A primeira fase ou fase da ambição lembra muito uma criança ou adolescente que presencia novos fatos, absorve novas idéias, associa outros valores, imagens, sons, gestos, movimentos e signos de forma geral. Após vivenciar todo este novo, estes se refazem como sujeitos. Logo, querer mais não é patológico. Todavia, esse momento exige uma grande transformação, porque chegará o momento de eleger algumas prioridades para a pesquisa, apesar que não me parece este o melhor termo a ser empregado neste momento.


Aludo a esta fase como ambição *o que é super válido* visto ser o instante em que as coisas começam a provocar crises necessárias para quem quer seguir os traços de um criador, neste caso de um coreógrafo que deseja mais.


Organizadas algumas destas idéias, fato que nos lembra um computador em que se coloca mais memória no HD (embora os arquivos estão ainda procurando suas pastas), passamos à seguinte - a traição. Termo no mínimo inesperado e polêmico, penso, conhecendo, observando e ouvindo vários colegas que esta é uma palavra que pode nos ajudar na seqüência desta análise.


Lembramos então um pouco como são em geral os habitantes deste estilo de vida chamado Hip Hop. Estamos nos remetendo a uma tribo onde há claramente códigos (não necessariamente escritos) de conduta, pensamentos, valores, ideologias. A relação proxêmica, ou pulsão afetiva que se deriva deste entorno, faz com que aqueles que desejam experimentar além dos traços culturais, estereotipados ou não, sintam pelos outros ou por si próprio um sentimento de estar traindo uma forma de fazer e pensar o movimento e as configurações que se aconchegam neste espaço pseudo-imaculado.


Assim, podemos entender porque estamos muitas das vezes assistindo um espetáculo de um destes grupos que já saíram da fase da ambição e então começam a experimentar de verdade, e de repente, vê-se alguma referência clara (na maioria das vezes dispensável) de tentar justificar aos amigos, ao público e a si próprio que seguem junto com o Hip Hop. É como se quisessem abrir uma faixa no final do trabalho escrito em arial black ou mesmo em graffiti com a sentença exposta: nós seguimos juntos com o movimento Hip Hop.


Bem, finalmente quando o coreógrafo e ou seu grupo conseguem superar esse momento, podemos estar bem perto de conhecer uma obra que tem como pilar o Hip Hop - eu já tenho visto algumas no Brasil e em alguns teatros pela Europa, mas são ainda raras.


Ao passar da fragilidade emocional para uma crise artística freqüente, o coreógrafo (que não deixa de ser do Hip Hop, e de forma alguma trai seu movimento) habita lugares de paisagens alvíssimas, clareiam-se questões antes muito embaçadas (que agora chegamos a rir de tudo isso). Nesta interface, chegam outros questionamentos a fim de que a alteridade não sufoque a crise na criação. Essa fase eu optei por chamar de liberdade, e esse é exatamente o sentimento que sinto aflorar em alguns colegas.


Quando optamos por olhar com um certo distanciamento aquilo do qual fazemos parte, é possível ver questões que antes não se enxergava (gênero, racismo às avessas, machismo, preconceito de dentro etc). Assim aparecem críticas que nos levam a um crescimento e amadurecimento do nosso próprio habitat.


Serão os próprios amantes e simpatizantes do Hip Hop que farão com que este movimento se torne menos partido e siga em movimento para o seu grande e merecido reconhecimento no universo cênico.



por Paulo Azevedo


quinta-feira, 8 de maio de 2008

Pós Tudo




Pós Tudo - poema concreto de Augusto de Campos

Dias e dias


TEM dias que as palavras são de chumbo
E a gente não trasborda sentimentos, só repisa trilhas batidas.
TEM dias que a inspiração é horrorosa
E a gente só quer despir os panos esgarçardos nas ilusões.
TEM dias que a mente não pára e não vem revelação
E a gente só quer rasgar os remendos mal cerzidos pela pieguice.
TEM dias que a poesia se liquefaz em queixa
E a gente só desdobra os lenços úmidos de lamentos.
TEM dias que tudo fica duro, muito áspero
E a gente só quer sumir pelas montanhas da solidão.
TEM dias que a morte parece tão eminente
E a gente só treme diante do grande medo.
TEM dias que a solidão é avassaladora
E a gente só grita Eloí, Eloí....



Ricardo Gondim

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Dança do Povo de Israel


A Bíblia nos revela a presença da dança no Êxodo, no livro de Juizes e nos Salmos, no Antigo e Novo Testamento, proporcionando, através de suas páginas, importantes informações de como aquela manifestação acompanhava os significativos momentos da vida do povo hebreu. Considerando as evidências encontradas na Bíblia, o Israel antigo dançava com frequência em diversas ocasiões. Miriã celebrou a libertação dos israelitas da escravidão egípcia dançando; Davi dançou com fervor perante a arca revelando a si mesmo diante do povo. Distinguimos entre as danças judaicas, as religiosas, executadas no templo e presentes nas festas de maio, na festa dos tabernáculos e na festa das colheitas, três épocas marcantes. Os fatos sociais, desde os mais simples aos mais relevantes, eram comemorados com canto, música e muito frequentemente com manifestações coreográficas, assim como as festividades agrícolas.As danças palestinas, na sua maioria, derivam de danças religiosas, e foram também influenciadas por outras culturas, com predominância da egípcia. As danças sagradas dos hebreus expandiram-se e deixaram vestígios na Europa da Idade Média. Há reminiscência de sua prática em muitas cerimônias do passado e em algumas da atualidade.


Algumas citações bíblicas:

2 Sm 6: 12-15 "Então avisaram a Davi, dizendo: O Senhor abençoou a casa de Obede-Edom e tudo quanto tem, por amor da arca de Deus: foi, pois Davi, e, com alegria, fez subir a arca de Deus da casa de Obede-Edom, à cidade de Davi. sucedeu que, quando os que levavam a arca do Senhor tinham dado seis passos, sacrificava ele bois e carneiros cevados. Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava cingido duma estola sacerdotal de linho."1 Sm 18: 6 e 7 " Sucedeu, porém, que, vindo Saul e seu exército, e voltando também Davi de ferir os filisteus, as mulheres de todas as cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando, com tambores, com júbilo e com instrumentos de música. As mulheres se alegravam e, cantando alternadamente, diziam: Saul feriu os seus milhares, porém Davi os seus dez milhares."Lc 15: 25-27 "Ora, o filho mais velho estivera no campo: e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe o que era aquilo. E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde."Ex 15: 20 e 21 "A profetiza Miriã, irmã de Arão, tomou um tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças. E Miriã lhes respondia: Cantai ao Senhor, porque gloriosamente triunfou, e precipitou no mar o cavalo e o seu cavaleiro."

É muito importante, se vamos trabalhar no ministério de dança, conhecermos o que a Bíblia nos diz a respeito. Incentivo você a continuar essa pesquisa sobre a dança no povo de Israel e a encontrar mais algumas citações bíblicas.


por Carolina Gualberto

sábado, 26 de abril de 2008

O Meu Deus Dança.



“Eu só creria num Deus que soubesse dançar...” - Friedrich Nietzsche


Meu pai não dançava, e não apenas porque a muleta o impedia, mas porque na família dele a dança não era tão celebrada, embora alguns dos meus tios gostassem de um arrasta pé à moda cabocla. Minha mãe dançava menos ainda. Filha da Mãe Velhinha, protestante, puritana, com mania de limpeza, com ódio de festa, e seu trauma com um marido mulherengo, minha vovó não poderia nem sequer se imaginar dançando. Daí minha mãe jamais ter dançado, exceto depois de velha, e já puxada por mim como brincadeira. Eu cresci sem dançar, embora, aí pelos 7 anos, eu adorasse tentar bailar. Dancei a primeira vez já aos 12 anos, quando, forçado por uma namoradinha, me vi diante de um “ou dança, ou dança”. Então dancei pra não dançar. E gostei... Dali em diante passei a dançar, até que conheci, em Manaus, aos 15 anos, alguns dos melhores dançarinos de salão que eu já tinha visto dançar. Celsinho foi um amigo que me soltou na dança. Ele era habilidoso, e me tirou a timidez de rebolar machamente, de me deixar levar pelo som, de emprestar o corpo à musica, e de deixar a musica fazer possessão da alma, transformando isso em movimento e forma: estética em movimento e sincronia. Então me soltei, e, durante anos dancei com imenso prazer, todos os dias, às vezes quase o dia inteiro, e, com certeza, todas as noites. Eu tinha prazer em dançar! Depois veio a conversão e o dançar entrou na lista das coisas mundanas que deveriam sair de minha existência. E, assim, nunca mais dancei, até que chegou dezembro de 1998, quando voltei a dançar, embalado também pelas agonias de meus desastres e tristezas, bem como da vergonha publica provocada pela exposição no malfadado “Dossiê Caymam”. Dancei, dancei e dancei. Dancei como índio quando se prepara para a guerra. Escolhi seguir o ritmo das percussões quando dançava. E me abandonava, de olhos fechados, à tirania e à possessão que a musica exerce sobre aquele que entrega sua alma ao ritmo e o corpo ao movimento provocado pela força da musica. E como me fez bem! Depois disso não mais deixei e nem pretendo deixar de dançar com minha mulher. Dançamos em casa, dançamos sozinhos, dançamos em casamentos, em festas, e dançamos em pistas dançantes... A minha pergunta é: por que os cristãos não dançam? Como? Se o primeiro milagre aconteceu numa festa, se a volta do pecador a Deus é como uma festa com dança, se o convite do reino é para um casamento com festa, se Jesus vivia em festas e banquetes, e também se a Escritura inteira sempre relaciona a vinda da Graça à sociedade, com danças de virgens, folguedos na praça, canções de amor, e vinho de alegria? Ora, até os judeus da idade da pedra da revelação, dançam. Dançam religiosamente; e dançam por mera alegria. Mas os cristãos não dançam. Ora, de onde vem isto? A viagem é longa, mas o roteiro básico é esse: o ascetismo que dominou setores da igreja, inibiu o estético e o artístico; a dicotomia gerada pela absorção do gnosticismo, produziu uma separação entre o material e o espiritual; o sacerdotalismo judaico, revivido pelo sacerdotalismo romano, com muitas absorções dos cultos pagãos, criou a ambiência do 'misterioso sem movimento'; os movimentos de santificação pela via das mortificações, impediam qualquer que fosse a expressão de afeto e toque; e a chegada do puritanismo protestante, e seus filhotes comportamentais e legais, os pentecostais legalistas, consumaram a obra de paralisia do corpo em relação a nada que não seja sinal de comunicação, expressão de funcionalidade física e profissional, e minimamente no ato conjugal moderado e sóbrio. Mas dançar? Jamais! Essa coisa de se mexer ao sabor dos contornos de uma musica ou melodia, e de se entregar a movimentos coordenados e em harmonia com outro corpo, é algo que ofende o paganismo greco-romano-anglo-saxão-puritano, e que constituiu a parede emocional e cultural do protestante e do evangélico, até mais do que do católico. Pela dança se celebra a alegria da vida, e tudo que é alegria de viver, é gratidão a Deus. Dançar não só é gostoso, como também pode até mesmo conduzir a pessoa a uma espécie de êxtase. Não raramente me sinto arrebatado quando danço com sinceridade. A dança é bela, linda, fascinante, mas só será sensual se quem dançar estiver gerando uma energia sensual; ou se o observador estiver com o olhar contaminado pela cobiça. Dançar, no entanto, é extravasar a alma mediante uma linguagem supra-racional, e que pode ser pura expressão de ser e sentir. Todavia, esse dançar não é acontece na “boquinha da garrafa”. Ele é portal dos sentidos e acontece nas fronteiras dos extra-sentidos. Portanto, não se inspira enquanto rebola subindo e descendo até a “boquinha da garrafa”. Quando leio os evangelhos vejo cada vez mais Jesus se movendo conforme as ondas e melodias de cada musica histórica que o afetava como fado de enfermidade, como danças de curas, como balés de milagres, como poesia de mensagens, como plasticidade cênica incomparável; e como presença certa em muitos jantares e banquetes, não importando a casa, mas apenas a recepção. Tudo em Jesus tem arte, estética, movimento, poesia, melodia, e ritmo. E Suas histórias são cheias de imagens e parábolas de festa, dança e convites a banquetes divinos e casamentos. Para Jesus até os anjos dançam e bailam quando uma consciência volta a si e se entrega ao amor do Pai. A grande ironia é que o Evangelho da dança, do banquete, da festa, das bodas, dos beijos de reconciliação, e do bom humor e das histórias até irônicas, virou o Cristianismo e seus filhos, os quais são contra toda alegria que não seja explicitamente litúrgica, que são contra a alegria do corpo, que são contra o bailar livre da alma e do corpo como expressão de gratidão explosiva ou como mera expressão de gáudio humano e sadio. Quem reclama muito disse hoje em dia são as mulheres dos homens crentes, que dizem que “não é bom”, porque o maridão crente não aprendeu a dançar. Dançar pode ser terapêutico para tudo, inclusive para a vida sexual, sem falar que é um dos mais eficazes desopilantes psicológicos. Jesus disse que os jejuns e tristezas seriam normais quando o Noivo (Jesus) fosse tirado dos discípulos. Mas isso seria apenas por “um pouco”, e, outra vez, em apenas um outro “um pouco”, e eles O veriam; e, dessa vez, sua alegria ninguém poderia tirar. Para mim um dos maiores sinais de cura humana, psicológica, cultural, e de grande libertação acontecerá no dia em que eu vir os crentes dançando pela alegria de dançar, fazendo isto como celebração da vida, conforme Jesus ensina no espírito do Evangelho, o qual se estriba em Sua própria atitude frente às celebrações humanas e ante as simples alegrias desta vida. O que os cristãos da religião precisam saber é que as danças da Nova Jerusalém não serão Piquiniques Evangélicos, mas ao contrário, serão celebrações de todas formas de expressão de vida que existirem nos povos. Quem não gosta, melhor é que vença esse preconceito, pois, o convite eterno é para a Festa do Cordeiro.
Nele, em Quem meu ser dança,
Caio Fábio


A Verdadeira Guerra da Adoração





Esqueça a disputa entre cânticos contemporâneos e hinos tradicionais – o problema é: onde está a justiça? - Por Mark Labberton (tradução de Whaner Endo)


Em um culto de louvor que participei, minha atenção dirigiu-se ao entusiasmado líder do louvor. Ele começou o momento com uma oração, pedindo a Deus para nos levar à sua presença. Ainda com seus olhos fechados, enquanto a banda continuava a tocar, ergueu suas mãos e ofereceu sua oração de louvor a Deus.

Foi aí que percebi que, enquanto cantava agitadamente, ele pisava os pés dos músicos que estavam atrás dele. Não apenas uma vez, mas repetidamente durante toda a música. E o pior, sem se desculpar, sem reconhecer o seu “tropeçar no espírito”. Ele estava apenas adorando ao Senhor, enquanto pisava no seu próximo.

Não tenho dúvida de que o líder do louvor estava tão absorvido pela sua própria experiência de adoração que perdera a noção dos demais que estavam à sua volta. E este é exatamente o problema.

Embora nossa paixão aparente por Deus, no final das contas nossa adoração parece ser, em grande parte, adoração a nós mesmos. Não assumimos que podemos adorar de uma forma que, mesmo encontrando Deus, nos distanciamos do nosso próximo. E, na verdade, foi esse padrão de adoração na vida de Israel que trouxe a eles o julgamento do Senhor. Adoração bíblica nos leva ao encontro a Deus, mas também ao próximo.

O que é irônico e, especialmente pertinente, é que muitos debates sobre adoração são apenas formas indiretas de falarmos sobre nós mesmos, não sobre Deus. Nosso debate é se gostamos ou não do estilo do nosso culto de louvor semanal. É uma adoração de consumo, em vez de uma adoração de oferta. É uma expressão do gosto humano e, não reflete mais a glória de Deus.
Se adoramos Jesus Cristo, então temos de viver como Jesus. De fato, Jesus disse em Mateus 25.31-46 que nosso louvor será medido de acordo com o que vivemos.

O epicentro da guerra sobre adoração é esse: nossa prática de adoração está separada do nosso chamado à justiça e, o pior, promove as tendências à auto-indulgência da nossa cultura, em vez de nutrir uma vida de auto-sacrifícios em prol do Reino de Deus.


Paralizados nos bancos das igrejas

Eu não me excluo dessa crítica, nem por um momento. E nem a congregação à qual faço parte. Muitos de nós estamos simplesmente ocupados demais com nosso dia-a-dia. A não ser as grandes manchetes, poucos problemas mundiais calam em nossos corações. E, quando prestamos atenção, normalmente experimentamos uma avalanche de notícias sobre um interminável senso de necessidade e desespero vindo de lugares como Timor Leste, Darfur, Baixo-Saara, Bangladesh, Haiti.

Admitimos que pessoas estão sofrendo no mundo. Mas, concluímos que o sofrimento “daquelas pessoas” não tem nada a ver com a gente; que morrer de fome nos campos de refugiados no Sudão é diferente do sofrimento das pessoas sem teto que encontramos no caminho para o nosso trabalho; que aquilo está além da nossa possibilidade de resposta ao sofrimento mundial.
Parte dessa doença é este trágico raciocínio: em face das necessidades mundiais, se não podemos fazer tudo, então não podemos fazer nada. Ficamos paralisados, inertes.

Enquanto isto, nosso mundo sofrido espera por um sinal de Deus na terra, “com grande expectativa que os filhos de Deus sejam revelados” (Rom. 8.19). O plano de Deus é que nós, a igreja, sejamos a evidência primeira da presença de Deus. Todo continente precisa de sinais concretos disto. Estatísticas surpreendentes sobre grilagem de terras e escravidão, má nutrição e fome, AIDS e prisões injustas são abundantes. Um abismo enorme entre a realidade atual do mundo e as preocupações da maioria dos cristãos na América do Norte.

O chamado de Jesus para “ir e fazer discípulos” deve ser realizado num mundo como este. As boas novas que transforma vidas é o amor salvador de Deus em Jesus Cristo, que deseja transformar cada pessoa e cada coisa (inclusive toda forma de injustiça e opressão) em algo novo. Esta é a nossa esperança e comissionamento.

A verdadeira crise na adoração é essa: será que as pessoas adorarão a Deus de uma forma que demonstrarão que estamos acordados? Adorando seu próximo em nome de Deus? Iremos adorar o Deus vivo enquanto ele nos pede “que façamos o que é direito, que amemos uns aos outros com dedicação e vivamos em humilde obediência ao nosso Deus”?
Líderes de adoração talvez queiram focar apenas no que parece culturalmente e socialmente urgente. Mas, se fomos criados para adorar o Senhor de toda criação, o Salvador do mundo, então enquanto estamos checando o som ou refletindo em orações ou sermões, temos de permanecer firmes numa visão mais ampla do amor de Deus.


O mundo na nossa adoração

Por muitos anos, recebo a cada domingo pela manhã um e-mail de missionários parceiros que apoiamos. Este casal e suas três filhas pequenas estavam vivendo e servindo junto às crianças em risco no Camboja. Um dos únicos emails que eu lia antes do culto era o seu relatório semanal. Eu lia como uma disciplina espiritual, como um pedacinho de misericórdia e verdade, como um lembrete e um chamado.

Eu precisava liderar nosso culto de adoração em Berkeley com meu coração renovadamente tocado pela realidade do sofrimento do mundo, da urgência em ouvir e viver a esperança do Evangelho, e o alegre e custoso chamado para uma vida de sacrifício em nome de Jesus.

A cada domingo eu desejo servir às pessoas nos primeiros bancos das igrejas e levá-los à transformadora presença do Senhor. O problema é: mas qual critério usar?

As escrituras indicam que a resposta é: aqueles que se sentem abençoados pela adoração vivem vidas transformadas. A evidência não é apenas os comentários logo após o término do culto, mas se as pessoas estão realmente dando suas vidas pelos pobres e oprimidos de forma tangível.

Num desses domingos, eu preguei sobre o Salmo 27, um salmo maravilhoso que descreve claramente o que é ter medo e encontrar o conforto de Deus. Tenho certeza que o sermão foi, pelo menos um “bom sermão”, talvez um “grande sermão”. Durante aquela semana eu fui a um jantar promovido pela International Justice Mission, uma organização cristã que busca justiça para pessoas que estão enfrentando várias formas de opressão.

Elisabeth, uma bela jovem de 17 anos do sudeste da Ásia, falou à noite. Ela cresceu num lar cristão, memorizando versículos bíblicos, que se tornaram mais vivos durante os anos em que ela ficou seqüestrada, forçada a prostituir-se, escravizada em um miserável bordel. Enquanto ela falava, projetava imagens do seu quarto naquele bordel. Sobre a cama, onde ela era brutalmente maltratada, dia após dia, ela havia escrito estas palavras na parede: “O SENHOR Deus é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O SENHOR me livra de todo perigo; não ficarei com medo de ninguém. Quando os maus, os meus inimigos, me atacam e procuram me matar, são eles que tropeçam e caem”. São os versículos iniciais do Salmo 27.

Relembrei o domingo anterior e o meu sermão sobre o mesmo salmo, lembrei dos medos que eu listara para as pessoas na minha igreja. Eram medos reais e legítimos, mas nenhum deles era tão enfático como os que Elisabeth enfrentara. Eu tinha como que uma imagem de um filme mudo na minha mente, ouvindo Elisabeth, enquanto visualizava um encontro de adoração da minha comunidade, em um domingo qualquer. Enquanto estávamos ocupados tentando estacionar nossos carros em Berkeley naquela manhã, uma tarefa “tão horrível” (como uma pessoa me disse recentemente), Elisabeth estava indo adorar do seu jeito. Ela achegava-se a Deus no seu quarto sem janelas, naquele bordel. E nós, na nossa igreja cheia de vitrais...

Se nós enxergássemos a história de Elizabeth através das lentes da narrativa bíblica, perceberíamos que amar a Deus nos impulsionaria a amar Elizabeth. Não porque sua história nos provoca sentimento de compaixão, mas porque sua vida e circunstâncias reivindicam aqueles que adoram Jesus Cristo.


Adoração como se o mundo dependesse disso

Verdadeiros adoradores aclaram o propósito de Deus e nossa parte nisso. Falsos adoradores, que podem ser encontrados facilmente tanto entre o povo de Deus quanto em qualquer outro lugar, nos levam a uma missão totalmente distorcida.

Tome-se como exemplo o poder, por exemplo. Poder é um das mais profundas bênçãos de Deus e, portanto um dos principais alvos dos falsos adoradores; ou seja, tomam o poder e mal utilizam-no para outras coisas, além de honrar o Senhor e sua criação. O sofrimento de Elizabeth, e muito do nosso próprio sofrimento, tem a ver com o abuso de poder. Adoradores fiéis ajudam-nos a aclarar e limitar o poder humano em nossas mentes e corações. Falsos adoradores nunca fazem isso. Falsos adoradores determinam a injustiça, uma distorção ou aberração do poder. Adoradores fiéis perguntam se estamos vendo e vivendo a realidade de Deus ou a ficção criada pelas nossas próprias vidas decaídas. Quando nós ou qualquer outra pessoa além de Deus assume o papel principal, a vida nos “chicoteia” para fora da direção.

Os efeitos da falsa adoração distorcem nosso senso de Deus, levando-nos a injustiças e sofrimento, orgulho e prepotência. Os prejuízos continuam implacavelmente. Não é a toa que Deus se enfureceu com Israel, ou com a Igreja, quando essa distorção foi perpetuada exatamente pelas pessoas que Ele tomou para si. Essa é a mensagem ardente de Isaías, Jeremias e Amós. Esta é o front da Guerra da Adoração que realmente interessa ao Senhor. A quem devemos temer?

Outra distorção que a falsa adoração promove é essa: perdemos a noção do desejo que o Senhor tem em nos fazer testemunhas do seu amor e justiça. Deus quer que dos verdadeiros adoradores fluam vidas que sejam evidências, nesse mundo, do seu caráter justo e íntegro. A falsa adoração, em vez disso, leva à falsa representação: podemos falar no nome de Senhor, mas falhamos em mostrar a Sua vida. O profeta Isaías disse que, quando o povo de Deus faz isso, mentimos sobre o Deus que representamos (Isaías 5.20-23; 29.13-16).

Deus quer que os descendentes de Abraão sejam abençoados e abençoadores. O relacionamento que tinham com Deus era tanto para seu bem quanto para o bem daqueles que, através deles (e de nós, também) “sentiam e viam que o Senhor é bom”. O mundo deve ver e saber das coisas de Deus através das vidas e ações dos verdadeiros adoradores.


Adoração que rearranja

Em uma viagem à Índia, conversei com um pastor sobre hábitos de leitura. Ele me disse: “se eu economizar por quatro meses, poderei comprar um livro cristão com o desconto que me dão. Nunca viajei para fora da Índia, mas já ouvi que nos Estados Unidos, algumas vezes compram livros e não os lêem”. E me perguntou com espanto: “Isso é verdade?” Murmurei alguma coisa para encobrir, enquanto eu pensava nos livros que existiam nas minhas prateleiras.

Nossa preocupação não é saber se compramos livros e não os lemos, mas quantos compramos. Se vacinamos nossas crianças ou não, mas se podemos acompanhar o processo para comprová-lo nas escolas dos nossos filhos. Não é se nos alimentamos ou não, mas o quanto comemos além do que precisamos ou até mesmo queremos. Não é se temos cama, mas qual a cor do lençol. Se teremos a possibilidade de ouvir sobre o amor de Deus em Jesus Cristo, mas qual ministério, igreja ou meio de comunicação eu mais gosto. Algumas pessoas, no nosso País, não têm a possibilidade de fazer essas escolhas (um escândalo, por si só). Mas, a maioria das pessoas nos Estados Unidos, tem. Enquanto isso, milhões de pessoas do sudoeste asiático e outros países pobres não poderão, nunca, tomar as suas próprias decisões.

Essa disparidade econômica e suas injustiças são questões para a adoração. De acordo com as escrituras, a principal forma de mostrarmos ou distingüirmos a verdadeira adoração da falsa adoração tem a ver com como respondemos aos pobres, oprimidos, negligenciados e esquecidos. E hoje não vejo esse tema borbulhando nas águas da adoração na Igreja americana. Mas justiça e misericórdia não são assessórios da adoração e, nem conseqüência do louvor. Justiça e misericórdia são intrínsecos a Deus e, portanto intrínsecos à adoração a Deus.Nossa adoração deve nos levar a uma maior misericórdia, a profundos atos de justiça, por aqueles que são os últimos da lista, os últimos a serem lembrados e os últimos a serem desejados.

A vigorosa adoração bíblica deve parar ou ao menos redirecionar nosso consumismo sem fim, de forma a fazer que nossas livres e fiéis escolhas sejam “gastar menos” para assim podermos “dar mais”. A reputação da nossa comunidade, como as escrituras sugerem, deveria ser a de compromisso com aqueles que perseguem a justiça, com os oprimidos, pois isso é o que significa sermos o Corpo de Cristo na terra. Não deveríamos nos enganar, pensando que isso é suficiente para nos levar ao coração de Deus, sem que nossas vidas mostrem ao mundo o coração desse Deus.





Trecho do livro “The Dangerous Act of Worship - Living God's Call to Justice” que será publicado no Brasil pela W4 Editora.

Mark Labberton é pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Berkeley, Califórnia.

Fonte:
LeadershipJournal.net via Blog da W4 Editora